Entro atrasada e sento no fundo. Sem óculos, enxergo apenas que o professor infelizmente fez a barba e cortou o cabelo. Não que pêlos traga beleza a ele, mas ficava um velhinho mais simpático. Entre “ß”, “Α” e “ξ” ele faz algumas perguntas e algumas comparações exdruxulas objetivando o entendimento do conteúdo por parte dos futuros cientistas políticos ali sentados.
Pessoas interessadas ou não no conteúdo da matéria se misturam. Obviamente, eu falo pelo ponto de vista dos desinteressados. Nesse momento acabo de descobrir que aquela patricinha chata está na minha turma e eu nunca a vi. Felizmente. A minha esquerda um pouco mais à frente tem uma colega. Desde sempre ela grita (sem abrir a boca) ao mundo que gosta de rosa. Percebo que, originalmente, o laptop dela é rosa. Rosa Pink. Ela não está com o excel aberto, como solicitado pelo professor, que aliás é a cara do Bush júnior. Ela está no Twitter, no gmail e no orkut. Agora me contem: pra quê que serve chamadas? Essa pessoa, assim como eu, não poderia estar em casa?
O professor anda de um lado ao outro da sala, intercalando sua explanação àlgumas perguntas. Poucos respondem, mas fico com uma sensação de que se eles respondem, eu vou passar na matéria. O garoto de camisa vermelha na minha frente tem cara de retardado (ops… politicamente incorreto), mesmo assim pergunta sobre “variáveis independentes” e suas relações com as “variáveis depedentes”. Me senti ainda mais retardada. Meu celular não toca, meu cigarro me chama e os ponteiros não rodam, nem o ” dos segundos”. O tempo pára (me recuso a tirar o acento). Vejo agora uma sala cheia de pessoas que sonham em estar em outro lugar, um professor parado pensando em como explicar algo tão simples para essas pessoas que mal sabem somar. Em geral, escolheram política pra não ter que ver mais equações e números.
Penso em nuvens, óculos, meias, viagens e mulheres. Ainda assim o tempo parece não passar. Penso em emails e gatos. Nada. Não sei mais o que eu faço. Acho que nunca vou ouvir o professor falar: até quinta, moçada! Ele sempre usa o termo “moçada”. Penso que ele é muito legal quando sentado no bar com a gente e até sinto saudade de um tempo que não volta. Talvez nem eu aguentasse mais, mas é como sentir de novo o que eu senti um dia. Nossa já tô falando bobagem há um tempão e a aula não acaba.
O gmail da menina também é rosa. Será que isso é algum tipo de auto-afirmação? Tipo: “olha, eu sou menina, viu? Não pensem outra coisa.”. Nossa, que saco! Já entrei na fase do desespero de achar que todo mundo tem problemas sérios. “Deus é mais!”, como se diz lá na Bahia.
O professor agora dita “Passos no Excel” e a piada infame surge: “o primeiro passo é abrir o excel”. Sim, sim. Pelo menos ele tenta ser engraçado. Mas isso faz o tempo passar? Se não fizer, é melhor parar. Pra que ser engraçado se eu quero é ir embora?
Como eu tô chata. Devo tá de TPM, mas acho que só tô ficando gripada mesmo. Preciso parar de fumar. Preciso comprar meias. Preciso de uma cama.
Teoricamente falta pouco pra acabar, mas ele não pára de falar. E eu ainda tenho que ir trabalhar, ficar lá até às 7 da noite. Depois é casa, porque eu não sou de ferro e tenho muitos vírus no meu corpo.
O MSN também é rosa! Ai, meu Deus! Me salvaaaa! Limpei minha carteira e a bosta da aula ainda perdura.
Acabooooooooooooou!
Até a próxima!