Segredos
Gosto de alguém que mora ali ao lado. Perto e longe o suficiente. Me apaixonei no primeiro encontro. Poderia ter sido o seu corpo, a sua pele ou até o seu beijo. Acredito, porém, ter sido o seu sorriso no primeiro dia, as suas reservas no segundo dia, a sua gentileza dez anos depois. O seu silêncio me angustia, mesmo me trazendo paz. Cada palavra sua me traz uma gota a mais de alegria, mesmo não sendo as que eu espero. As nossas distâncias todas são infinitas, mas eu a sinto perto. Cada vez que eu a encontro tento sentir suas cores, aprisionar os seus cheiros e tocar os seus pensamentos.
Às vezes tenho vontade de lhe falar tudo, de lhe mostrar o meu mundo, mesmo sabendo que eu não devo. Então, às vezes apenas me calo. Às vezes conto meias verdades. Eu invento verdades fáceis de ouvir, ela finge que acredita em mim. Eu invento sorrisos, ela finge que ri. Eu invento amizade, ela finge que sim. Eu invado o seu mundo, ela finge que não. Fingimos ambas. Uma que não quer e a outra que não sabe.
Volto pra casa, a noite é longa e o sono não vem. Eu já não consigo dormir sem sua presença. Então, para acalmar o espírito, penso nela fingindo que não fingimos nada. E aos poucos a nossa distância diminui. Conversamos sobre qualquer assunto sem importância e eu já não tenho medo de tocar sua mão. O seu olhar encontra o meu. Ela sorri silenciosa. Nos beijamos e já não estou sozinha. O sono chega e consigo dormir. Ela continua muito distante, mas eu continuo sentindo sua respiração.
Texto muito bom…