Às vezes eu queria ser invisível, mesmo que fosse pra sempre. Se eu fosse invisível as distâncias seriam menores. Se eu tivesse o poder da invisibilidade, eu poderia chegar perto sem ser vista e ficar ali, durante toda uma noite só olhando ela dormir. Poderia fazer parte da sua rotina e, quem sabe, até cuidar um pouco dela. Eu sinto falta de cuidar dela. Sinto falta de mandar tomar remédio e sinto falta de consolá-la, mesmo quando eu não devia. É engraçado isso. Eu sinto falta de coisas que nunca esperei sentir. Eu sinto falta das brigas, sinto falta das pazes. Sinto falta de dormir de mãos dadas, mesmo que há um tempo não o fizéssemos mais. Sinto falta da constante necessidade de comprar roupas e sapatos, até sinto falta de procurar com ela.
Mas o que me fez chorar hoje não foi nenhuma dessas faltas. Hoje eu pensei no que fazer no próximo Natal e Réveillon. Lembrei o quanto eu não gosto de Natal e o quanto os natais com ela foram os melhores, só por esperar a sua ligação me desejando um Feliz Natal. Pra mim aquilo era tudo, porque ela sim sabia o que era Natal. Ela amava o Natal e tentava passar isso pra mim. Mas ainda não é sobre a lembrança do Natal que eu quero falar. É sobre o Réveillon. Esse é o meu dia preferido de todos os feriados. Não sei bem o porquê. Pensei nos planos que eu não tenho pra esse ano e pensei no que eu fiz ano passado. Eu não tinha nada programado, mas sabia que passaria onde ela estivesse. E ela estaria em Brasília, voltando de um dos Natais mais tristes pra ela. Na semana pós-natal e pré-réveillon ela estava bem triste e eu achei que deveria insistir pra fazermos alguma coisa fora de casa no dia 31, mas, no fim, ela não quis e ficamos em casa. Na virada do ano estávamos de frente ao computador vendo série e apagando uma velinha. Ela estava encostada em mim e chorou durante muito tempo. Apesar de ter demorado pra entender, quando nós fomos dormir, fiquei velando seu sono por cerca de meia hora e entendi que aquela foi a melhor de todas as viradas de ano que tive até então.
Ela estava ali comigo. Confiou a mim a sua dor e eu estava ali com ela. Tudo fazia sentido. Tudo era do jeito que deveria ser. Talvez tenha sido a última noite que eu tive esse privilégio de não apenas dormir ao seu lado, mas de estar com ela. De ter a certeza que ela sabia que eu estava ali pra ela, com ela.
Não me entendam mal. Não gostaria que acontecesse a mesma coisa com ela, foi tudo muito triste, mas eu não queria que fosse a última vez que eu estivesse ali. Eu não quis e ainda não quero. Mas tudo parece estar muito distante agora. E por mais triste que fosse aquela noite, tudo parece ainda mais triste agora.
Eu sei que é querer muito. Eu sei que é pedir demais e sei ainda que fui eu quem fez tudo isso acabar, sei que sou a culpada. Sei que não posso mais consertar nada, sei que a perdi. Mas tudo que eu queria é estar perto dela, queria que ela tivesse comigo, que ela soubesse que por mais que eu erre, por mais que todo o resto seja só um borrão, eu a amo e esse amor é a única coisa nítida na minha vida. É a única coisa que faz sentido e que dá sentido a todo o resto.
Sinto saudade. Saudade de quem eu era quando tava com ela, mas, principalmente, sinto saudade do que nós éramos juntas. Sinto uma saudade que fere. Fere meu corpo, meu orgulho, fere minha alma. E tudo que eu deveria querer é jogar fora tudo que me traz essa saudade, mas tudo que eu realmente quero é não precisar mais senti-la.